ALIMENTAÇÃO CURITIBANA

O que falar sobre nossa alimentação do passado, comparando com a contemporânea. Tem tudo haver em qualidade e também fartura. Sou uma Curitibana nascida do final da década de 30. Tempo que ainda havia, ofertas de alimentos a domicílio e com muita abundância.

Lembro-me dos colonos oriundos de Santa Felicidade, que diariamente batiam às nossas portas e nos ofereciam em suas carroças lotadas, produtos hortigranjeiros, cereais, frutas além da lenha que sustentavam nossos fogões.

Tratava-se de verduras plantadas sem agrotóxicos nem outro processo de conservação. Os ovos eram de galinhas soltas (caipiras) e vinham embrulhados um a um, em folhas de palha de milho para não haver quebras.

É de salientar que os mesmos, não tinham prazo de validade, sendo suas gemas amarelas ao extremo. Usávamos  os mesmos para fazer deliciosas gemadas (em nossa casa o especialista era meu irmão mais velho, Álvaro) cuja gemada era batida até se tornar branca e fazer bolhas, acrescentada com um pouco de vinho tinto. Que saudades!

A manteiga era acondicionada em porções nas folhas de repolho. Era bem amarelinha (sem urucum).

Note-se que na época não havia geladeiras elétricas ainda, sendo usadas as mesmas de ferro, pintadas de branco com duas portas: na parte superior da mesma era colocada uma barra de gelo por dia. Quem se encarregava da distribuição diária do gelo eram profissionais chamados de geleiros. Na porta inferior eram colocados os alimentos a ser conservados. As primeiras geladeiras elétricas apareceram lá pelos anos 1953 em diante e foi uma febre.

Nesta mesma data surgiram os primeiros chuveiros elétricos (famosas marcas Sintex e Rei) logo após os fogões a gás. Dai sim foi o fim dos fumacentos fogões à lenha. Máquinas de lavar nem se falava. Elas foram lançadas no comércio a partir dos anos 1960 (as primeiras Brastemp). Veja bem que antes dos chuveiros elétricos, os banhos eram programados todos os dias, isto é pela parte da manhã quando os fogões eram acesos. A água passava pelas serpentinas existentes no mesmo e se dirigiam para uma caldeira e assim ótimos banhos quentes eram tomados.

As panelas e utensílios de cozinha, eram de ferro pesadíssimos e nem por isso nossas mães e avós se queixavam de tendinites ou coisas parecidas.

O que dizer dos armazéns que nos davam livre escolha de produtos servidos no balcão conforme pedido do freguês. Muitos produtos eram vendidos a granel e comprava-se o tanto que iriamos utilizar.

Quanto aos cereais eram ofertados em sacos de papel e eram vendidos nos armazéns e principalmente em moinhos, sendo o nosso preferido na Rua Mateus Leme, Moinho Weigert. Quanto as frutas eram encontradas com abundância em todos quintais residenciais .

Falemos agora de carnes, aves e peixes. As carnes não eram congeladas, pois vinha diretamente do abatedouro para o consumidor (Frigorífico Jorge Bonn no Bacacheri)  Muitas vezes tínhamos que esperar algum tempo para que a carne esfriasse para o corte. Um dos principais açougues ficava na R. José Bonifácio chamado, Garmatter.

Os peixes eram oferecidos por peixeiros, trazendo sobre os ombros dois balaios e todos os dias passavam chamando a freguesia. Vinham direto do Litoral.

As aves eram criadas em quintais espaçosos nas casas, ou vendidas em casas especializadas sendo a principal do bairro a Casa Cocorocó, situada na Riachuelo. Lá a pessoa escolhia a ave que era abatida, limpa e entregue, para o comprador.

Quanto a água, pouco se ouvia falar em mineral. Era tomada diretamente da torneira ou de poços (quem os tinha).

Os olhos de água (fontes), eram encontrados com facilidade e ofereciam deliciosas águas sendo que neste tempo não havia infiltração de solo, ou melhor dizendo contaminação. O leite, entregue diariamente pelos leiteiros. Eram colocadas garrafas vazias na porta, pela manhã. Que leite puro aquele, pois formava uma nata de uns 5 cm na parte superior da garrafa. Minha mãe retirava esta nata que era batida até virar manteiga.

Lembremos por último dos queijos daquele tempo, de excelente qualidade e ressalto um inesquecível, bem  furadinho e picante, de nome Tabú, nosso predileto.

Pergunto agora, com todos os avanços da tecnologia e da indústria em geral, atualmente encontramos algo mais sadio como daquele tempo?

Acompanho o desenvolvimento de tudo e acho necessário que isto se de, mas dá uma saudades daquele tempo que tudo era tão simples, e até a vida passava devagar!

RECORDAR É VIVER!

* Foto Ilustrativa extraída do livro de Luiz Carlos Pereira Tourinho.

3 comentários

  1. Eliane Weidner
    Eliane Weidner Responder

    Esses comentários da tia Iara me deixam com o coração transbordando de tanta alegria. De certa forma sou muito saudosista.

    Ela guarda na lembrança fatos ocorridos a muito tempo. Alguns deles ainda tenho na memória.

    Tia, continue a nos brindar com suas lembranças, que muito nos emocionam.

  2. Iara N. Alves
    Iara N. Alves Responder

    Eliane, obrigada pelos elogios sobre meu trabalho. Gosto muito de relembrar fatos ocorridos de nossa família e principalmente ao que se refere ao passado dos sobrinhos, que acompanhei passo a passo seu crescimento e principalmente suas realizações. Vocês fazem parte de tudo isso!

  3. Albano
    Albano Responder

    Assim como a Eliane me tornei fã dos textos da tia Iara. A gente viaja no tempo com suas estórias. Quem não viveu em determinadas épocas acaba sabendo como funcionavam as coisas.

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